Tuesday, January 11, 2005

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Vinte e nove. Vinte e nove anos! Acabo de ligar a um amigo que faz hoje vinte e nove anos! Como é possível? Vinte e nove parecem-me muitos. A ele, parecem-lhe milhares. São alguns, sem dúvida. E enquanto ele fala, lembro-me de quando tinhamos 12 anos. Uma tarde quente, muito quente de verão. Já eramos amigos. Há amigos que nascem connosco. Eram duas e tal da tarde. Muito quente. Fui a casa dele visitar a mãe. A mãe do meu amigo estava muito doente. Cheguei a casa dele e falei com ela. Ela pediu-me para o ir chamar. Estava a sentir-se muito fraca. Queria despedir-se dele. Saí de casa da mãe do meu amigo a correr, a correr muito. Chamava-o num silêncio gritante enquanto corria pela aldeia à procura dele. Vinte e nove anos! A mãe do meu amigo morreu e ele ficou com os olhos azuis muito mais azuis ainda. Agora que acabo de desligar o telefone, lembro-me de uma tarde, outra tarde, não tão quente. Uma tarde em que entramos na universidade pela primeira vez. Fomos os dois ao cemitério. Ele queria dizer à mãe. E lembro-me de quando fomos para Itália, tres semanas à aventura, ou para Barcelona. Vinte e nove anos.« O tempo passa». Pois passa. Só as recordações é que não.
500 dias

De maneira que nem parecia que já tinham passado 500 dias. 500. Eu contei-te milhares de coisas, desdobrei vezes e tal o guardanapo, mexi no cabelo, remexi no cabelo, sorri, corei, disse piadas. Ri-me. Riste-te. Rimo-nos. De maneira que dessa forma nem parecia que já tinham passado 500 dias. Uma porra de tempo, uma data de meses. Falaste-me de projectos. De trabalho. Tens uma série de coisas para acabar, está a correr bem, disseste-me, mas ando à nora, concluiste. E eu a olhar para ti na esperança que a tua nora tivesse também como causa a minha ausência, a nossa ausência, mas tu adiantaste pouco em relação a isso. E eu respeitei. Contei-te coisas de senhora, surpreendi-me e deixei-te de boca aberta duas ou três vezes. De maneira que assim, quem nos visse, nem ía dizer que já passaram 500 dias. Sem o peso da vitória pedida, assim, é muito mais fácil entrar em campo. E quem nos visse, sentados a beber chá e a contar coisas dos dias, ninguém diria, mesmo ninguém, que já passaram 500 dias.