Sunday, September 26, 2004

A história da Meia Lua
(versão feminina)
Nunca ninguém ousara perguntar-lhe a quem pertencia a barriga que gerara tão bela criatura. Era enigma. Coisa falada em segredo, três vezes benzida antes de pronunciar qualquer palavra relacionada com tal ventre. Mas como era linda aquela menina! Tinha olhos pretos, tão pretos, que ao pé deles, a noite parecia irmã do dia. Quem era o pai todos sabiam. Quem era a mãe… ninguém se atrevia sequer a querer saber. Parecia coisa de fadas. Ou diabos. Mas passemos à apresentação da história que se segue. Zé Tristão era o pai da garotinha. A mãe, já o disse, ninguém sabia quem era. Tristão nunca fora visto com mulher nem bicho parecido. Era só. Vivia só. Só ele a olhar a lua. Jogava futebol, chamemos-lhe assim, ao jogo ruim de ver e de jogar, que Zé Tristão improvisava num campo de terra, para lá do sol posto. Ai como jogava mal! Diziam as más línguas, que tamanha falta de pontaria, era por falta de mulher. Zé Tristão rematava torto, tão torto, que não raras as vezes, a bola fugia a sete ventos e desaparecia em tempo algum. Quantas bolas se perderam nos riscos do horizonte… um dia Zé Tristão saiu de Covelinhos para ir apanhar uma bola e chegou abanando o seu desajeitado tronco, as suas pernas desproporcionais a desobedecerem a qualquer matemática do corpo humano. Zé Tristão chegava feliz. Numa mão trazia a bola, na outra uma pequena criaturinha rosada e linda. Tão linda! Nunca ninguém tinha visto criança tão bonita. E juro que não estou a exagerar! Tristão engalanou-se e apresentou a pequena como sendo sua filha. A menina foi crescendo na proporção da sua desmesurada beleza. Ninguém perguntava a Zé Tristão quem era a mãe. Ao ano e meio já a garota corria mais do que o pai. No dia em que fez dois aniversários, era domingo. Zé Tristão tinha jogo de futebol. Zé pegou nas chuteiras com uma mão e com a outra segurou a mão da garota. Chegados ao campo, pegou na catraia e sentou-a em cima da baliza, no exacto lugar onde o vértice superior esquerdo segura a malha. Do lado do coração. Todos acharam que Tristão estava louco. Que ia magoar a pequena. Mas Tristão pouco se importou dos apupos. A petiza também não. Sorria para o pai com o sorriso mais belo que a sua beleza conseguia tecer. O jogo começou no final da tarde, tal a discussão que se gerou em torno de tão impróprio lugar para sentar uma criança. Era quase noite. Zé correu para a bola com o seu corpo enorme e fora de ritmo. A pequena baloiçava os pezitos ao penduro na baliza. Zé Tristão sorriu para dentro. Abriu bem as narinas, engoliu todo o ar que conseguia e rematou. Rematou forte. Muito forte. Quem estava fechou os olhos. Um aiiiiii geral encheu o campo. Um pensamento unânime gelou os corações : “coitada da menina!”. Quando os Covelinhenses abriram os olhos, a medo, viram a bola anichada no cantinho da baliza. Era já noite. A brancura da bola e da malha contrastavam com o negro do ar. Varreram com os olhos os cantos do campo.
E ao longe, ainda conseguiram ver Zé Tristão e a menina a subir muito alto, pelo lado esquerdo do céu. Contaram-me depois, foram ter com a mãe da pequena, que lá do alto, esperava a sua metade para se transformar em Lua Cheia.

Friday, September 24, 2004

Meia Lua

Em pequeno, o sobrenome Meia ditou-lhe anos de tormento. Meia leca para os mais educados, Meia foda para os outros, quase todos, escusado será dizer. As piadas, tantas, estendiam-se ao último apelido. Ou porque andava sempre de cabeça na Lua, ou então, bem pior, tinha nascido de cú para a Lua. Uma imensidão de lugares comuns bem à medida tradicional de casos à margem da social normalidade.
Há apenas um momento de esquecer tudo. E começou naquele fim de tarde, ao balcão do café do pai e da mãe, com o leite nos lábios e pão com manteiga nos dentes. Fazia isso às terças e quintas, sempre, porque as aulas acabavam mais cedo. Ao balcão do café Meia Lua, propriedade de Maria Fio de Meia e Joaquim Joaquim Sol e Lua, os pais de João Maria Meia Lua.
A hora do lanche dele, naquele dia, à hora da cerveja do senhor Campos, treinador dos iniciados do Desportivo União, traçou um futuro mais do que perfeito.
Hoje relembra quase tudo desses dias. E se sorri no minuto mais importante da sua vida, enquanto milhares estão em pânico na bancada, milhões em casa, um dezena no campo e mais uma dezena no banco, se sorri neste momento, a explicação é demasiado simples.
Está a ver-se exactamente assim, há treze anos atrás, no pelado do Clube de Futebol de Serzedo, rival eterno do Desportivo União. O sorriso é por causa dos calções largos em pano, calções velhos dos seniores, presos na cinta pelo cordão de uma chuteira que tinha esgotado o prazo de vida. Chutou para ganhar.
Está hoje também no único sítio da área onde a linha faz curva. Os nomes ditos nas bocas dos outros são outros. No único sítio da área onde a linha faz curva, faz o que tem a fazer.
Demasiado simples para ele, João Maria Meia Lua. Já só responde por Meia Lua. Mas é o de sempre: apenas filho do Quim Quim e da Mimi.

Thursday, September 23, 2004

Tudo
(menina)

De futebol não percebo nada. Aliás, não percebo nada de quase nada. E no entanto gosto de quase tudo. Eu que sempre quis pouco, vou conseguindo a pouco e pouco o pouco que pedi. Tenho domingos à tarde e campos de terra batida com gente de sardas a rir e a correr aos circulos em busca da tal magia que só se consegue agarrar aos domingos à tarde quando se corre em campos de terra batida com o céu azul recortado entre duas balizas. E tenho conversas banais, tão banais que para mim passam a ter a importancia que lhes devo nestas teclas de computador. De futebol não percebo nada. Aliás, não percebo nada de quase nada. E no entanto gosto do céu azul recortado entre duas balizas.

Saturday, September 18, 2004

Morrer em campo - I

Não lhe vou dar nome, nem número, nem cor à camisola.
Prefiro ignorar se chovia ou se me cegava a luz dos holofotes.
Esqueci o resultado, limpei da memória o tempo que faltava para jogar. Mas jogámos, todos, o tempo que faltava para jogar, para que ele pudesse sair dali e declarado morto no hospital.
A bola ia e vinha sem sentido. Como o fim de uma vida.

Friday, September 17, 2004

Amor à camisola - manias de homem

Volto a ser um puto quando olho para ti. Pego-te sempre com a mesma ternura e quando toco em ti suspiro aquela tranqulidade só nossa.
Amo-te ao jeito de uma moda antiga.
Que importa se dizem que já não me serves, que engordei ou que encolheste.
É só contigo que ando às riscas. Serves-me à medida, na horizontal do verde e do branco. Somos sagrados quando o leão encosta ao coração.
Perdoo-te todos os defeitos e acho até gostar deles. Cravo as mãos em ti nos dias felizes e só te largo para dormir. Ficas deitada a meu lado.
Sonho um amor eterno. Por acaso é real. Obrigado por existires. És boa parte de mim.
Não se vê, mas por dentro sou gémeo de ti.

Vieram mil por nós os dois


Vieram uma vez por outra, em quase todas as semanas, mas não todos os dias.
Vieram por nós os dois. Um e outro vieram se calhar só uma vez.
Mas também eles vieram por nós os dois.
Viram os treinos, os ensaios tácticos, as entradas mais duras, de carrinho ou pé em riste. E os desarmes limpinhos.
Viram fintas, viram golos, bolas amortecidas no peito, chutos em arco e de bico. Os falhanços na cara do golo, as defesas impossíveis... os ais e os uis.
Os pontapés de saída, de baliza e até de bicicleta. Braços no ar, alegria e desalento. Lágrimas felizes, lágrimas tristes. E eu contigo ou tu comigo. Em casa e nos jogos fora, ao sol e à chuva. Em estádios cheios ou com bancadas desertas.
É lindo o futebol e as palavras que escrevemos com ele. Golo número mil.
De volta
( meninices)

Já passaram mais de cinco anos. Estou de volta. Estamos de volta. Domingo há jogo no mesmo campo, naquele campo, que foi pretexto de escrita de uma primeira escrita neste blog. Cinco anos. Mais? Mais. Muito mais. Daqui de onde eu estou vejo agora as linhas de campo desenhadas de outra forma. Não estou no pico da idade, ainda não, para lá caminho, mas o sol já não me cega, nem a noite me mete medo. Vou jogar. Eu e a Sandra e a Carla e a Inês e todas as outras que um dia fizeram parte da minha vida. Estamos outra vez juntas. Outras vez. Já não há o Rui nem o Carlos nem o Nuno. Há nós a rir e a correr pelo campo a desenhar linhas imaginárias que levam a bola em atrevidas danças até à baliza onde a apoteose do golo será uma espécie de final feliz com pontos de exclamação para nós, sim para nós, para mim e para a Sandra e para a Inês e para a Carla e para todas aquelas que aparecerem por aí e que queiram ser outra vez meninas a correr sob campos imaginários com balizas e golos e bolas e risos e suor e tudo o que me apetecer pensar e escrever e inventar porque nos golos da minha cabeça mando eu , só eu, e eu gosto muito de marcar golos de cabeça. Tenho dito. E disse. E escrevo. Muito.

Thursday, September 02, 2004

Restaurante Portugal
Ir ao mercado e voltar e mãos abanar. Ou de bolsos vazios. Ou os dois. Ou não.

Alberto não dorme, nem mesmo fora de serviço. Alberto está dois passos à frente, é o homem do leme, o caça talentos, o senhor intuição.
Cheira-lhe que peixe graúdo pode resolver o problema e sabe da importância vital de uns quantos jaquinzinhos. Do oito ao oitenta, dois ou três recém-nascidos podem ser levados para o viveiro, os de melhor "potencial" aparente. E aqui ninguém melhor do que Alberto para escolher.
Lembra, orgulhoso, há uns tempos atrás, aquele pequeno comprado no leve-três-pague-um, aquele vindo por excesso para possiblitar a vinda de outro. O que não era para vir, esse que foi embora há dois meses, para a mesa quatro, a peso de ouro. Fez-se peixe pelas mãos dele, peixe a sério.

O fundo para a aquisição dá para tudo. Peixe graúdo, para lucro imediato, ou escamas despercebidas, a médio prazo. Ou então os dois.

Alberto faz contas e contas, pé ante pé, marginal fora, depois cidade dentro. Vai. Volta.
Faz contas e contas. Se chega assim ao mercado, sem fórmula para decidir, há-de voltar a cometer o mesmos erros de há dois anos atrás.
Talvez seja melhor dormir sobre o assunto, regressar amanhã, passar a noite a reflectir os porquês de o chefe de cozinha, cargo que acumulava com o de mesa, ter escolhido emigrar.
Logo agora que o Restaurante Portugal voltou às páginas dos guias estrada, como o melhor da europa.
Amanhã, Alberto vai decidir mal. Pouco importa. Usa e deita fora. Até um dia.




Wednesday, July 14, 2004

O defeso

Regresso à vista. Estamos quase de volta. Entretanto, há por aí antonioonline.blogspot.com
Estamos a preparar o nova época sem reforços...a transferência vais ser apenas de palavras e de...ideias

Saturday, June 19, 2004

Primeira vez
(ela)



Era sábado e o sol estalava nas nossas cabeças. Junho no pico é assim. Fechou a porta de casa e partiu. Era a primeira vez que ia ao futebol. E logo em dia de jogo grande. Não fora escolhido por acaso. Nada da sua vida era por acaso. O marido, os dois filhos, o piriquito, os três bonsais. Mariana - acho que pode muito bem chamar-se Mariana a menina desta história - nunca se tinha sentado numa bancada de um campo de futebol. Mas aquele era o dia. Tinha-o decidido meses antes. Comprou o bilhete pela net, não disse nada ao marido, nem aos filhos. Comentou ao de leve com o piriquito, mas não fosse ele aprender magias de palavras com os primos papagaios e Mariana, a menina desta história, virou-se para os três bonsais e foi com eles que se aconselhou nesta aventura do futebol. Inventou uma sessão de chá com as amigas e naquele sábado inicio de tarde, deixou os miudos com a avó, o Francisco com o trabalho, o piriquito com o T2 apertado e os três bonsais no banco de frente do carro. E lá foram. Era junho, já o disse, e o sol estalava como só os sóis de junho estalam na cabeça de quem se atreve a sentar-se numa bancada de futebol num pico de tarde. Os bonsais tiveram que ficar no carro, porque não tinham bilhete, mas Mariana entrou. Devidamente revistada, devidamente entusiasmada ainda que a medo que o medo tomasse conta dela.Ainda não tinham passado sete minutos e já Mariana desenrolava a bandeira do país que levava na mochila e limpava as lágrimas. Jurou. Futebol nunca mais. Futebol na televisão nunca mais. Ao vivo era bem melhor.

Saturday, May 22, 2004

Quatro linhas femininas



Uma.Uma linha.Manuel sorri do lado de lá da linha.Tem 44 anos, é enfermeiro, casado, tem um filho.
Duas.Duas linhas.Guilherme, divorciado, 34 anos, duas filhas.
Três.Três linhas. Rita, futura advogada, 24 anos, solteira,independente.
Quatro.Quatro linhas.Nuno, 14 anos, não faz nada.
Nas quatro linhas que se seguem, falam-se e cruzam-se quatro vidas. Quatro jogos. Bola ao centro.Prim.Começou. É dia quatro do quarto mês de 2004.Há sol. Estádio do Quarteto, Quarteira. Manuel lembra-se do filho, 4 anos, menino reguila, adepto incondicional da equipa do Quarteto.A mulher, grávida de 4 meses, está em casa a fazer a quarta mantinha de lã para o berço que já dorme no quarto do bebé que ha-de vir.Manuel puxa de um cigarro.O quarto do dia.Abençoado estádio que lhe permite fazer estas diabruras sem se considerar um demónio maníaco a um passo de deixar negros os ainda não pulmões do bebé que ha-de vir.Guilherme olha o relógio. Quatro da tarde.Daqui a nada volta a casa. Não tem ninguém à espera. Já lá vão 4 anos.O telemóvel da Rita estremece. Uma mensagem.«Aparece logo.Fico à tua espera....no quarto».Quatro pontos.Quatro reticencias.Não foi engano.Três é banal.Quatro é mais do que três, ensaia outros anseios.... Rita sorri para o telemóvel, ajeita o cabelo,cora baixinho.Nuno grita.Porra!Foi quase golo.Puxa as calças,alisa o suor.Olha para o relógio.Quatro e quatro.Foi num dia quatro de outro ano que lhe tiraram o pai, tinha ele quatro anos.Quatro balas no peito - numa guerra que não viu. Manuel encosta-se, Guilherme alinha-se, Rita ajeita o decote,Nuno olha para nada. Quatro vezes quatro.Num dia quatro de um quarto mês de 2004. Não é muito normal, mas esta história só faz sentido - se é que é possivel ter sentido uma história escrita em volta de um quatro, se acabar com o numero quatro a marcar o quarto golo da equipa do Quarteto, na Quarteira.Reza a história que agora escrevo, às quatro horas, quatro minutos e quatro segundos.

Thursday, May 20, 2004

Quatro linhas

Agarrado. O sol, os 31 graus e as miúdas em bikini tornam-se insuficientes para me levantar do sofá. Perdem para o frigorífico até cima de cerveja, para os 2 maços de cigarros e para o marisco enviado pelo avô.
Sozinho sou tanta gente: o motorista do autocarro, o peão na passadeira, o homem da portagem, o senhor do talho, o executivo, o servente de pedreiro, o técnico informático. Todos somos um. Ansiosos da final, campeões de trazer por casa.

A televisão convida para a minha sala os jogadores no aquecimento já no rectângulo do jogo. Drogo-me com aquelas quatro linhas, fazem-me super-homem, imbatível, destemido. Agarrado até ao fim. Vamos ganhar.

Friday, May 14, 2004

Regresso após lesão

Não jogar com as letras durante 27 dias deve doer tanto como estar sem tocar numa bola durante o mesmo período de tempo.
Em diversas ocasiões, parar é um sentido obrigatório: caminho solitário para perfeição.
Estar de volta é estar melhor, é sentir o sentido da saudade. No mundo das palavras é um exclusivo: PORTUGAL.

É bom inventar frases, partir para cima do teclado, ir à esquerda e à direita, em velocidade, fintar lugares comuns, parar a respiração com o peito, chutar, em força, com jeito, letras e letras, fazer golos de improviso.
Amo as palavras e os passes. As frases, as jogadas. Os textos e os jogos. Livros e campeonatos.

Thursday, May 13, 2004

mais de mim em: www.calor.blogspot.com

Sunday, May 09, 2004

Fim de campeonato
(ela)




E pronto. Ponto final. Fim de jogo. Fim de campeonato. Virar de página.
Esta tarde enquanto esperava cheia de frio pelo fim do jogo entre o Moreirense e o Alverca, dei por mim a pensar
que o futebol é mesmo mesmo muito parecido com a vida. Frase feita, bem sei, frase escrita e dita por um amigo
que também cabe neste texto. Mas é verdade. Esta tarde vi os olhos tristes dos homens de Alverca a deixarem os olhos alegres dos jogadores do Moreirense. E vi-me a mim, a olhar para ambos. Fora de jogo, olheira de novos talentos, desejosa de encontrar nuns e noutros motivos que me fizessem sorrir. O futebol é como a vida. Tem partes, substituições, lesões, cartões vermelhos, advertências. Há sempre alguém, ingratamente conhecido por andar vestido de negro, que é como se de uma sombra se tratasse, um aviso de cuidados. E afinal, está lá sempre. Quer os jogadores gostem ou não das suas decisões. O futebol é como a vida e o arbitro de futebol é como a morte. Corre-se corre-se e para-se quando ele quer. Quando ele diz «já chega», mesmo que o resultado não interesse a uma das equipas ou a ambas, mesmo que os adeptos chorem nas bancadas desejosos de um minuto mais para mudar o destino de um jogo, que às vezes é também o destino de uma vida, de um clube, de uma nação. Ou mesmo que o jogo apeteça continuar pela magia que nasce dele. E no entanto o arbitro manda parar e não fala. Faz-se ouvir de outra forma, chega implacável, sem nem mais nem porquês. E fim. O jogo acaba. E renasce noutro campo, noutro dia, mas nunca de forma igual, mesmo que os jogadores sejam os mesmo. É por estas e por outras que eu não tenho dúvidas nenhumas em afirmar que o futebol é como a vida, independentemente das caras, dos sorrisos, das histórias e estórias, dos amores e desamores. Não há dois clubes iguais, dois jogadores com a mesma magia. É por isso que o futebol é um acto de amor. E a vida é única. Tal como não há dois arbitros iguais. Ainda que quase todos sejam motivos de queixas e lamurias. Como a morte.

Monday, May 03, 2004

Num domingo de Maio
o fim de ti



Arrastam-se as cadeiras. O apito final está aí.
Colarinhos bem passados, é domingo, dia de festa. Não há gente neste espectáculo.
Apenas os artistas desfilam as suas roupas domingueiras neste Domingo sem gente e sem festa.
Ao longe advinho-te nas bancadas. Uma sombra de calor percorre-te e deixa-te ainda mais azul. Ris.
Ris de tudo e de nada. Dizes-me que sou tua. Lá baixo, lá baixo onde o espectáculo é espectáculo, lá baixo, dizia, joga-se outro mundo. Redondo.
Tu estás sózinho na bancada. Ris. Sorris. Abanas a cabeça a cada lance perdido. Se fumasses imaginava-te a deitar o fumo
em circulos e mais circulos, que se perderiam no céu. Azul. Mas não fumas. E ris-te. Passas a mão pelo cabelo.
Golo. É golo.
Levantas-te ligeiramente. Vejo-te o corpo desenhado. Voltas a passar a mão no cabelo. Castanho. E ris. Beijas-me. Passeias-me as mãos pelas pernas pouco cruzadas. Domingo. Domingo de Maio.
Sózinha vejo-te sózinho com os olhos pregados no espectáculo. Choro a tua tristeza. Choro a minha solidão. Choro a nossa vida. Choro-nos enquanto tu ris. Sózinho.
É domingo, dia de jogo, dia final da festa. Não há gente no espectáculo. Imagino-te sentado numa das muitas cadeiras. E choro. Choro a tua ausência. A tua morte. Porquê?«Só Deus tem os que mais ama.»
Num domingo igual ao que aí vem, num dia de Maio como o que se aproxima. E o teu corpo ainda está presente, moldado em mim palmo a palmo, beijo a beijo. E no entanto foi num domingo como aquele que aí vem que tu foste embora. Fim de jogo. Fim de mim.

Sunday, April 18, 2004

Três em um
- anúncio televisivo em directo para uma lavagem mais eficaz



Reunidos em torno de mesa, cinco homens debatem ideias.
Analisam ao detalhe um estudo de mercado sobre as cores e os padrões do campeonato do país.
O azul, o verde, o vermelho, o xadrez.
O azul é o mais forte, é o melhor vai ganhar na outra semana ou na outra a seguir.
O verde não deve ganhar...mas nunca se sabe.
O vermelho dificilmente deixará de ser terceiro, porque não joga para isso, porque a qualidade é curta lá atrás.
O xadrez morreu e ressuscita. Morreu e diz-se morto para lugares europeus.

Um jogo, num estádio, com duas equipas, com meia dúzia de adeptos e um filho da puta com apito na boca.

Um jogo em que o verde ganha... e é derrotado por dois amarelos inventados à pressão, alta se calhar. Um jogo em que um avançado agarra um defesa e ganha uma falta de golo. Um jogo em que, outro avançado, a muito menos dos 9 metros e 15 impostos pelo lei, impede a marcação de um livre e para cúmulo arranca o cartão vermelho ao marcador do livre.

Três em um. O azul vai ser campeão mais cedo do que o previsto e salvaguarda-se de imprevistos.
O vermelho passa a ver mais de perto a liga dos campeões. O xadrez, morto e ressuscitado, fica um pontinho da europa.
E tudo por obra e graça, apenas e exclusivamente, de: um grande filho da puta.


Nota: alta, há-de ser, a do relatório do moço. O "exibe-tomates-às-senhoras-da-polícia". O "inventa-cartões-amarelos-à-pressão-em-lances-que-nem-sequer-são-falta", o "marca-foras-de-jogo-a-atletas-que-estão-no-meio-campo-defensivo-e-partem-isolados-com-55-metros-para-a-baliza".

E se me perguntarem: no meio de tudo isto não há intervenientes castigados? Vou ser obrigado a responder: há. Mas são verdes.

Tuesday, April 13, 2004

Quatro três três

É bonita, dizer quanto não se diz.
Mora naquela rua lá do outro lado, aquela pela areia fora, ao lado das canas, à frente do mar.
No número 433. Quatrocentos e trinta e três. Quatro três três, conjugação numérica de táctica de futebol.
Joga-se pelos flancos, abre-se o adversário para atacar pelo meio.
Estica-se a paciência, até aos extremos, guarda-se o golpe fatal para o coração.
Vou jogar este jogo contigo.
O número da tua porta há-de ser o código para entrar em ti.

Saturday, April 03, 2004


Pensando bem...
(ela regressa aos relvados, ou pelados.)



Está a chover. Uma chuva que não é miudinha e que não molha só os tolos.
A minha mulher está a arrumar a cozinha, meto a mão ao bolso, tenho dinheiro, vou ao futebol.
É tarde de domigo. Enfio-me no velho Fiat, ligo a rádio na Renascença. Lisboa é bonita. Parece uma senhorinha, às vezes. Outras, uma velha muito velha,
experiente e sofrida. Outras ainda uma rapariga de vestido branco, virgem nos movimentos, à espera de prazer. É bonita a minha cidade.
À porta do estádio já há mais como eu. É domingo e devem ter dinheiro. Ainda é cedo, deixo-me estar no carro.
Sou eu quem daqui a nada vai entrar em campo. Vou sorrir para os fotografos, falar com os jornalistas. Hoje não vou obdecer à lei da rolha.
Hoje, vou falar, alto e bom som. Vou dançar por cada golo que marcar, embalar estes milhares de adeptos no baile das minhas ancas.
Vou levantar os olhos ao céu, vou apontar para um lugar infinito e serei estrela, amanha, nos jornais desportivos.
Hoje o jogo é meu. É domingo e tenho dinheiro no bolso.
Mas pensado bem, acho que afinal não vou ao futebol.
Vou buscar a minha Adelaide, pagar-lhe uma meia de leite e uma torrada e contar-lhe histórias desta tarde, que afinal, é minha.

Monday, March 29, 2004

Entra o dia, sai a noite
Substituições. Tudo o que for preciso para ganhar
Virar o jogo ao contrário

São quase horas de acordar. O jogo acaba hoje, de uma ou de outra forma.
Equipo-me a rigor, saco do armário o conjunto alternativo. Calças, Blazer. Em preto. As meias, os sapatos, o cinto e a camisa.
Salto para o chuveiro antes do início da partida. Demoro. Ensaio a táctica, espalho a espuma de barbear, concentro o olhar nos olhos do espelho. Em cada passagem, a gillette ouve-me uma frase. Foi a última palestra.

Os minutos passam, a hora aproxima-se, o ritmo aumenta. A camisa por dentro
por dentro das calças. Aperto de cinto determinado. Blazer de uma vez só. Sapatos: um, dois.

O estágio é longo, no carro, em andamento. Voltas em que volta tudo a passar diante. Está na hora. Não vou.
A perder, que seja por falta de comparência.
Imagino-te no estádio do nosso desafio, da nossa final. Equipamento habitual.
Calças descida, justa, camisa justa, decote. Sandália alta. Casaco fino sobre a mala, " mais vale o brio do que o frio".

Ainda esperas à hora em deveríamos estar nos penaltys. Vejo-te do outro lado da rua. Levantas-te, sais e acontece essa coisa dos pressentimentos. Levantas a cabeça para me ver. Olhos nos olhos ouvimos o apito final.
Só volto a casa de manhã.