Saturday, May 22, 2004

Quatro linhas femininas



Uma.Uma linha.Manuel sorri do lado de lá da linha.Tem 44 anos, é enfermeiro, casado, tem um filho.
Duas.Duas linhas.Guilherme, divorciado, 34 anos, duas filhas.
Três.Três linhas. Rita, futura advogada, 24 anos, solteira,independente.
Quatro.Quatro linhas.Nuno, 14 anos, não faz nada.
Nas quatro linhas que se seguem, falam-se e cruzam-se quatro vidas. Quatro jogos. Bola ao centro.Prim.Começou. É dia quatro do quarto mês de 2004.Há sol. Estádio do Quarteto, Quarteira. Manuel lembra-se do filho, 4 anos, menino reguila, adepto incondicional da equipa do Quarteto.A mulher, grávida de 4 meses, está em casa a fazer a quarta mantinha de lã para o berço que já dorme no quarto do bebé que ha-de vir.Manuel puxa de um cigarro.O quarto do dia.Abençoado estádio que lhe permite fazer estas diabruras sem se considerar um demónio maníaco a um passo de deixar negros os ainda não pulmões do bebé que ha-de vir.Guilherme olha o relógio. Quatro da tarde.Daqui a nada volta a casa. Não tem ninguém à espera. Já lá vão 4 anos.O telemóvel da Rita estremece. Uma mensagem.«Aparece logo.Fico à tua espera....no quarto».Quatro pontos.Quatro reticencias.Não foi engano.Três é banal.Quatro é mais do que três, ensaia outros anseios.... Rita sorri para o telemóvel, ajeita o cabelo,cora baixinho.Nuno grita.Porra!Foi quase golo.Puxa as calças,alisa o suor.Olha para o relógio.Quatro e quatro.Foi num dia quatro de outro ano que lhe tiraram o pai, tinha ele quatro anos.Quatro balas no peito - numa guerra que não viu. Manuel encosta-se, Guilherme alinha-se, Rita ajeita o decote,Nuno olha para nada. Quatro vezes quatro.Num dia quatro de um quarto mês de 2004. Não é muito normal, mas esta história só faz sentido - se é que é possivel ter sentido uma história escrita em volta de um quatro, se acabar com o numero quatro a marcar o quarto golo da equipa do Quarteto, na Quarteira.Reza a história que agora escrevo, às quatro horas, quatro minutos e quatro segundos.

Thursday, May 20, 2004

Quatro linhas

Agarrado. O sol, os 31 graus e as miúdas em bikini tornam-se insuficientes para me levantar do sofá. Perdem para o frigorífico até cima de cerveja, para os 2 maços de cigarros e para o marisco enviado pelo avô.
Sozinho sou tanta gente: o motorista do autocarro, o peão na passadeira, o homem da portagem, o senhor do talho, o executivo, o servente de pedreiro, o técnico informático. Todos somos um. Ansiosos da final, campeões de trazer por casa.

A televisão convida para a minha sala os jogadores no aquecimento já no rectângulo do jogo. Drogo-me com aquelas quatro linhas, fazem-me super-homem, imbatível, destemido. Agarrado até ao fim. Vamos ganhar.

Friday, May 14, 2004

Regresso após lesão

Não jogar com as letras durante 27 dias deve doer tanto como estar sem tocar numa bola durante o mesmo período de tempo.
Em diversas ocasiões, parar é um sentido obrigatório: caminho solitário para perfeição.
Estar de volta é estar melhor, é sentir o sentido da saudade. No mundo das palavras é um exclusivo: PORTUGAL.

É bom inventar frases, partir para cima do teclado, ir à esquerda e à direita, em velocidade, fintar lugares comuns, parar a respiração com o peito, chutar, em força, com jeito, letras e letras, fazer golos de improviso.
Amo as palavras e os passes. As frases, as jogadas. Os textos e os jogos. Livros e campeonatos.

Thursday, May 13, 2004

mais de mim em: www.calor.blogspot.com

Sunday, May 09, 2004

Fim de campeonato
(ela)




E pronto. Ponto final. Fim de jogo. Fim de campeonato. Virar de página.
Esta tarde enquanto esperava cheia de frio pelo fim do jogo entre o Moreirense e o Alverca, dei por mim a pensar
que o futebol é mesmo mesmo muito parecido com a vida. Frase feita, bem sei, frase escrita e dita por um amigo
que também cabe neste texto. Mas é verdade. Esta tarde vi os olhos tristes dos homens de Alverca a deixarem os olhos alegres dos jogadores do Moreirense. E vi-me a mim, a olhar para ambos. Fora de jogo, olheira de novos talentos, desejosa de encontrar nuns e noutros motivos que me fizessem sorrir. O futebol é como a vida. Tem partes, substituições, lesões, cartões vermelhos, advertências. Há sempre alguém, ingratamente conhecido por andar vestido de negro, que é como se de uma sombra se tratasse, um aviso de cuidados. E afinal, está lá sempre. Quer os jogadores gostem ou não das suas decisões. O futebol é como a vida e o arbitro de futebol é como a morte. Corre-se corre-se e para-se quando ele quer. Quando ele diz «já chega», mesmo que o resultado não interesse a uma das equipas ou a ambas, mesmo que os adeptos chorem nas bancadas desejosos de um minuto mais para mudar o destino de um jogo, que às vezes é também o destino de uma vida, de um clube, de uma nação. Ou mesmo que o jogo apeteça continuar pela magia que nasce dele. E no entanto o arbitro manda parar e não fala. Faz-se ouvir de outra forma, chega implacável, sem nem mais nem porquês. E fim. O jogo acaba. E renasce noutro campo, noutro dia, mas nunca de forma igual, mesmo que os jogadores sejam os mesmo. É por estas e por outras que eu não tenho dúvidas nenhumas em afirmar que o futebol é como a vida, independentemente das caras, dos sorrisos, das histórias e estórias, dos amores e desamores. Não há dois clubes iguais, dois jogadores com a mesma magia. É por isso que o futebol é um acto de amor. E a vida é única. Tal como não há dois arbitros iguais. Ainda que quase todos sejam motivos de queixas e lamurias. Como a morte.

Monday, May 03, 2004

Num domingo de Maio
o fim de ti



Arrastam-se as cadeiras. O apito final está aí.
Colarinhos bem passados, é domingo, dia de festa. Não há gente neste espectáculo.
Apenas os artistas desfilam as suas roupas domingueiras neste Domingo sem gente e sem festa.
Ao longe advinho-te nas bancadas. Uma sombra de calor percorre-te e deixa-te ainda mais azul. Ris.
Ris de tudo e de nada. Dizes-me que sou tua. Lá baixo, lá baixo onde o espectáculo é espectáculo, lá baixo, dizia, joga-se outro mundo. Redondo.
Tu estás sózinho na bancada. Ris. Sorris. Abanas a cabeça a cada lance perdido. Se fumasses imaginava-te a deitar o fumo
em circulos e mais circulos, que se perderiam no céu. Azul. Mas não fumas. E ris-te. Passas a mão pelo cabelo.
Golo. É golo.
Levantas-te ligeiramente. Vejo-te o corpo desenhado. Voltas a passar a mão no cabelo. Castanho. E ris. Beijas-me. Passeias-me as mãos pelas pernas pouco cruzadas. Domingo. Domingo de Maio.
Sózinha vejo-te sózinho com os olhos pregados no espectáculo. Choro a tua tristeza. Choro a minha solidão. Choro a nossa vida. Choro-nos enquanto tu ris. Sózinho.
É domingo, dia de jogo, dia final da festa. Não há gente no espectáculo. Imagino-te sentado numa das muitas cadeiras. E choro. Choro a tua ausência. A tua morte. Porquê?«Só Deus tem os que mais ama.»
Num domingo igual ao que aí vem, num dia de Maio como o que se aproxima. E o teu corpo ainda está presente, moldado em mim palmo a palmo, beijo a beijo. E no entanto foi num domingo como aquele que aí vem que tu foste embora. Fim de jogo. Fim de mim.

Sunday, April 18, 2004

Três em um
- anúncio televisivo em directo para uma lavagem mais eficaz



Reunidos em torno de mesa, cinco homens debatem ideias.
Analisam ao detalhe um estudo de mercado sobre as cores e os padrões do campeonato do país.
O azul, o verde, o vermelho, o xadrez.
O azul é o mais forte, é o melhor vai ganhar na outra semana ou na outra a seguir.
O verde não deve ganhar...mas nunca se sabe.
O vermelho dificilmente deixará de ser terceiro, porque não joga para isso, porque a qualidade é curta lá atrás.
O xadrez morreu e ressuscita. Morreu e diz-se morto para lugares europeus.

Um jogo, num estádio, com duas equipas, com meia dúzia de adeptos e um filho da puta com apito na boca.

Um jogo em que o verde ganha... e é derrotado por dois amarelos inventados à pressão, alta se calhar. Um jogo em que um avançado agarra um defesa e ganha uma falta de golo. Um jogo em que, outro avançado, a muito menos dos 9 metros e 15 impostos pelo lei, impede a marcação de um livre e para cúmulo arranca o cartão vermelho ao marcador do livre.

Três em um. O azul vai ser campeão mais cedo do que o previsto e salvaguarda-se de imprevistos.
O vermelho passa a ver mais de perto a liga dos campeões. O xadrez, morto e ressuscitado, fica um pontinho da europa.
E tudo por obra e graça, apenas e exclusivamente, de: um grande filho da puta.


Nota: alta, há-de ser, a do relatório do moço. O "exibe-tomates-às-senhoras-da-polícia". O "inventa-cartões-amarelos-à-pressão-em-lances-que-nem-sequer-são-falta", o "marca-foras-de-jogo-a-atletas-que-estão-no-meio-campo-defensivo-e-partem-isolados-com-55-metros-para-a-baliza".

E se me perguntarem: no meio de tudo isto não há intervenientes castigados? Vou ser obrigado a responder: há. Mas são verdes.

Tuesday, April 13, 2004

Quatro três três

É bonita, dizer quanto não se diz.
Mora naquela rua lá do outro lado, aquela pela areia fora, ao lado das canas, à frente do mar.
No número 433. Quatrocentos e trinta e três. Quatro três três, conjugação numérica de táctica de futebol.
Joga-se pelos flancos, abre-se o adversário para atacar pelo meio.
Estica-se a paciência, até aos extremos, guarda-se o golpe fatal para o coração.
Vou jogar este jogo contigo.
O número da tua porta há-de ser o código para entrar em ti.

Saturday, April 03, 2004


Pensando bem...
(ela regressa aos relvados, ou pelados.)



Está a chover. Uma chuva que não é miudinha e que não molha só os tolos.
A minha mulher está a arrumar a cozinha, meto a mão ao bolso, tenho dinheiro, vou ao futebol.
É tarde de domigo. Enfio-me no velho Fiat, ligo a rádio na Renascença. Lisboa é bonita. Parece uma senhorinha, às vezes. Outras, uma velha muito velha,
experiente e sofrida. Outras ainda uma rapariga de vestido branco, virgem nos movimentos, à espera de prazer. É bonita a minha cidade.
À porta do estádio já há mais como eu. É domingo e devem ter dinheiro. Ainda é cedo, deixo-me estar no carro.
Sou eu quem daqui a nada vai entrar em campo. Vou sorrir para os fotografos, falar com os jornalistas. Hoje não vou obdecer à lei da rolha.
Hoje, vou falar, alto e bom som. Vou dançar por cada golo que marcar, embalar estes milhares de adeptos no baile das minhas ancas.
Vou levantar os olhos ao céu, vou apontar para um lugar infinito e serei estrela, amanha, nos jornais desportivos.
Hoje o jogo é meu. É domingo e tenho dinheiro no bolso.
Mas pensado bem, acho que afinal não vou ao futebol.
Vou buscar a minha Adelaide, pagar-lhe uma meia de leite e uma torrada e contar-lhe histórias desta tarde, que afinal, é minha.

Monday, March 29, 2004

Entra o dia, sai a noite
Substituições. Tudo o que for preciso para ganhar
Virar o jogo ao contrário

São quase horas de acordar. O jogo acaba hoje, de uma ou de outra forma.
Equipo-me a rigor, saco do armário o conjunto alternativo. Calças, Blazer. Em preto. As meias, os sapatos, o cinto e a camisa.
Salto para o chuveiro antes do início da partida. Demoro. Ensaio a táctica, espalho a espuma de barbear, concentro o olhar nos olhos do espelho. Em cada passagem, a gillette ouve-me uma frase. Foi a última palestra.

Os minutos passam, a hora aproxima-se, o ritmo aumenta. A camisa por dentro
por dentro das calças. Aperto de cinto determinado. Blazer de uma vez só. Sapatos: um, dois.

O estágio é longo, no carro, em andamento. Voltas em que volta tudo a passar diante. Está na hora. Não vou.
A perder, que seja por falta de comparência.
Imagino-te no estádio do nosso desafio, da nossa final. Equipamento habitual.
Calças descida, justa, camisa justa, decote. Sandália alta. Casaco fino sobre a mala, " mais vale o brio do que o frio".

Ainda esperas à hora em deveríamos estar nos penaltys. Vejo-te do outro lado da rua. Levantas-te, sais e acontece essa coisa dos pressentimentos. Levantas a cabeça para me ver. Olhos nos olhos ouvimos o apito final.
Só volto a casa de manhã.


Tuesday, March 23, 2004

Cinco bolas por 5 escudos de sete em sete dias
- estrelas em plástico, madeira e ferro -

Um menino pede, pede muito, para os anos virem depressa. Não pelos anos. Para crescer.
Nunca participa, de facto, na festa. É o público. Sentado de joelhos na cadeira atrás de uma das balizas.
"2 cafés, meia de leite, 1 pingo claro"
Em pé aparece o cabelo... e os olhos se em bicos de pé.
Escapa por milagre às bolas fora.
"sai 1 torrada, 1 galão e 1 pirolito"
Hoje só vieram três, um está doente. O puto vai jogar, na posição de público, de joelhos na cadeira, mas vai jogar.
Mão esquerda no meio campo de 5, direita no ataque de três.
Falta força no centro, sobra jeito na frente. O complemento suficiente à experiência da defesa.
5 bolas = a vitória ou derrota.
" 1 chá, 1 queque, 2 finos"
Já só faltam 7 dias para próxima vez.
" 7 chicletes"
Adeus até para a semana.



Joãozinho
(visão feminina da vida pouco direita de um extremo-esquerdo)




Era de todos o mais incompreendido.
Joãozinho. Na escola o menino gozado era bom a matemática e mau a português.
Joãozinho, extremo-esquerdo.
Olhos enormes, sorriso feio, feiinho… cabelo despenteado e pele cor de terra batida.
Joãozinho. Não havia conta que ele falhasse. «Dois passes vezes três livres, isso dá…seis remates»,
concluía Joãozinho com o tal sorriso. Tanto que sorria esse menino! E para o caso, sorrir nem sequer era uma vantagem.
Joãozinho extremo-esquerdo não tinha amores, porque as meninas fugiam dele a sete pés.
Não tinha amigos, porque os amores dos amigos fugiam dos amigos de Joãozinho mal o vissem sorrir. E como Joãozinho sorria!
Olhos grandes. Demasiado grandes. Dizia o professor de Geografia que a grandeza das crateras dos vulcões não era nada
comparada com as pupilas de Joãozinho. Indiferente a tudo, Joãozinho sorria. Extremo-esquerdo. Sempre.
Aos domingos depois da missa, Joãozinho corria corria corria pelo lado esquerdo de qualquer lado,
atrás de bolas imaginárias que sorriam para ele, com a boca escancarada em histórias de couro que só Joãozinho entendia.
Joãozinho ouvia e sorria. Indiferente a tudo.
Extremo-esquerdo.
Porque nunca lhe deu jeito ter o coração do lado direito.

Monday, March 22, 2004

Segunda-feira todo o dia

É do tempo dos calções em pano e das camisolas grossas em malha quente, de gola justa ao pescoço.
É do tempo das chuteiras pretas, e só dessa cor, do tempo de as amarrar de acordo
com a moda: simplesmente sobre o peito do pé em laço, em duas voltas pelo tornozelo enlaçadas
no tendão de aquiles, em duas voltas por baixo da sola e apertadas em nó curto no peito do pé.
É do tempo das meias simples, não elásticas, do tempo dos atilhos, os fios de apertar a meia
logo abaixo do joelho.
Recorda-se do inverno gelado e do sol quente da primavera aos domingos de manhã.
E da agitação após o jantar das noites de sábado. De deitar-se amarrado às chuteiras com os braços.
De não domir e de ver nelas os golos da próxima manhã.
Aos domingos ela vem sempre, quase da altura do pai.
É mais bonita na primavera e serena no inverno.
Ele é do tempo em que o árbitro só veste de preto. Mal escuta o último apito já está a sonhar outra vez.
Para ele já é segunda-feira. Ela está sentada na esplanada. Dizem olá.
Falam do mundo das camisolas quentes,
das chuteiras pretas e só dessa cor, dos calções de pano. Não falam do óbvio. Sentem e basta.

Friday, March 19, 2004

Entre a rua e a areia

Costumava ser ao fim da tarde. O sol aproximava-se das dunas, sorria para nós e continuava a descer,
quando já não o viamos, sobre o mar.
Costuma ser dia sim, dia não ou quando nos apetecesse.
Um livro sobre o volante, o teu corpo no meu colo. Cabeça adormecida no ombro.
Música no número 2 do volume.
Costumava ser perfeito.
As rodas encostavam na areia. As de trás não chegavam à rua.
O teu sono era meu.
O espaço está lá, diante das dunas. Esta lá e não está. É outro. Uma tira amarela para gente e bicicletas.
Passo sem pressa. No número 2 do volume. Fala de um jogo que acabou de acabar.
Em que todos ficaram a perder. O vencedor e o derrotado.





Sumário nº4: O futebol é o Pai de todos os desportos.O melhor do mundo. Pelo menos para os filhos.

Wednesday, March 17, 2004

Pretextos
(olhares femininos sobre um mar sem cor)




Falas-me sem pausas do que te atormenta.
O trabalho, sempre o trabalho.
O estômago, a cabeça, os rins, a falta de ar, os problemas de respiração que se agravam dia após dia.
Ouço-te neste início de tarde como em tantas e tantas outras.
«Sim, eu sei. Eu sei que deve ser difícil», respondo-te. «Claro que te dou atenção!», continuo.
Falas-me neste início de tarde de futilidades.
Dos carros, do trabalho, da filha da tua irmã que te riscou uma disquete ou um CD, ou coisa do género. Falas-me e eu não te ouço. Tens razão.
Falas e eu prendo-me no mar.
É bonito o mar, não é? Eu sempre achei que o mar não ter cor. Não é azul, nem verde, nem cinzento. É mar.
Gostava de ter um mar no meu quarto.
Falas-me e eu deambulo o olhar entre a água e o areal imenso que se estende aos meus pés.
«Sim, estou a ouvir-te. Diz!», continuo.
Um menino queimado pelos primeiros sóis brinca na areia. Um cão corre para a água.
Uma senhora gorda deita-se entre as rochas. Um casal de namorados passeia em conversas mudas.
Estico-me na cadeira, imagino-me pequenina outra vez, sou eu quem brinca nesta praia.
A areia húmida cola-se aos meus pés.
Escrevo com conchinhas os problemas que mais me afligem, numa espécie de síntese, e depois espero que a água os apague e volto feliz para o areal seco, com menos problemas. Fácil.
E deito-me ao sol a sentir a agua salgada secar na pele, a tirar-lhe a elasticidade.
Neste início de tarde, falas e eu não te ouço.
Apetece-me continuar nesta praia de menina e acreditar que o mar não tem cor e que as coisas más
desaparecem ao toque da água.
Estico-me mais uma vez na cadeira. Falas, falas, falas. Ao longe vejo uma imagem perfeita.
Duas balizas no areal, dois meninos. Um deles está bem ao centro da baliza.
Tem uns calções azuis. O cabelo castanho muito escuro.
Vejo-o no enquadramento da baliza, o mar em segundo plano, o céu escondido na neblina deste inicio de tarde
em que tu falas e eu não te ouço.
Parece-me feliz este menino que espera a bola neste quadro perfeito em que está pintado.
Lembro-me: o futebol é um belo pretexto para escrever. E escrevo.

Thursday, March 11, 2004

O maior guarda-redes do mundo
(meninices)





Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá.
Assim era o seu nome.
Há quem afiance que Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá era o homem mais alto do mundo.
O maior entre os maiores. O homem mágico que não cabia na baliza.
Mas Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá nem sempre teve uma vida feliz. Não teve não senhor.
Eu sei-o e posso falar, porque conheci-o numa tarde de chuva, tarde cinzenta de um mês de Agosto.
Daqueles dias estranhos que parece que não cabem nos calendários. Mas vamos ao que interessa.
Ou seja, a Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá, o homem mais alto do mundo.
Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá era guarda-redes da equipa dos Asas Negras numa África que eu só conheci das histórias de colo do meu avô.
Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá, tinha corpo de homem mas era miúdo e sonhava jogar à bola.
Grande, grande, todos o mandavam para a baliza.
Ora Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá apenas sonhava em aninhar o pé num branco e preto de bola e chutar,
chutar muito forte para dentro da baliza.
Mas, raios de vida!, era ele quem a defendia!
« Manel, tu vai jogá?»
«Pois sim, Don`Ana, Lá vamos nós!» E quando dizia «Lá vamos nós!», era mesmo isso que queria dizer.
Porque quando Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá se lançava em voos para agarrar bolas, levava consigo uma migração de pássaros.
Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá foi crescendo, crescendo, crescendo. E cada vez mais a baliza lhe parecia mais pequena, mais pequena, mais pequena. Nesta desproporção de tamanhos, Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá ficava sempre a ganhar e não havia bola que entrasse no seu território. Ganhava a equipa dos Asas Negras, os adeptos vibravam, Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá sofria baixinho.
Um dia, Dona Ana perguntou. «Manel, tu vai jogá?». E ele respondeu: «Hoje sim, Don `Ana, hoje vou memo jogá!»
O campo estava cheio, cheirava a açafrão. Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá ajeitou-se na baliza.
Os mãos por cima da trave, os pés quase no meio-campo.
Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá,o homem mais alto do mundo.
Uma bola vinha direitinho aos seus olhos. Manuel Serôdio de Carvalho Aguaçá esticou um dedo.
A bola tocou-lhe, fez-lhe festas, deu meia volta e voou para o outro lado do campo.
Golo. Foi golo.
Com a mão.

Tuesday, March 09, 2004

Lição nº 3
Sumário:
O futebol permite-nos fazer 30 por uma linha

Monday, March 08, 2004

Man of the match
(impressões dedicadamente femininas sobre o tal ultimo dia de um tal resto de vida de um número)



Ora aí está ele. Pé na relva, sorriso sincero, olhar distante.
Foi a mãe que lhe bordou o número que traz na camisola. Um número que obedece à magia do tempo
e vai mudando sem que lhe seja necessário dar mais pontos ou linha.
Amparado às vezes, outras não. Cai, porque qualquer jogador pode cair, levanta-se, porque os bons jogadores
levantam-se rápido.
É assim esse jogador de quem escrevo.
Escrevo apenas umas linhas que nem sequer obedecem a uma regra cientifica nem muito nem pouco certa.
É dia de jogo. Derby. Coisa em grande. Ele contra ele.
Número de camisola contra numero que se advinha. Está quase.
Nos minutos derradeiros de entrar em campo faz o que sempre fez. Supersticioso.
Chama o olhar, encaixa-o nos olhos escuros, debruça-se sobre o QWERT e inventa letras
que se encaixam na perfeição no número que carrega nas costas.
O estádio está cheio. Batem-se palmas, grita-se-lhe o nome. Chovem pipocas.
As pernas tremem-lhe de mansinho, (ele justifica no dia a seguir para os jornais,
jura que foi por causa das chuteiras que lhe ficavam apertadas).
Mexe um pé. Mexe outro pé. Direito, esquerdo, direito, esquerdo.
Ensaia um sorriso, é dia de derby.
Um frio corre-lhe onde às vezes o sangue quase chega a fervilhar.
Entrega-se sem pudor ao jogo. É dia de derby. O olhar já está outra vez lá longe.
É dia de jogo. É dia de derby. É sábado , não é domingo à tarde.

Sunday, March 07, 2004

O fim do jogo
(Uma história cor-de-rosa choque)


Há uma história inacabada cada vez que o cronómetro marca o minuto noventa, o arbitro apita,
levanta os braços e indica o caminho para os balneários.
Adelaide sabe-o bem. Viu com a barriga inchada de esperança muitas vezes a mesma imagem, o mesmo gesto,
o mesmo sentido.
Noventa minutos, noventa anos, noventa vidas que se lhe alojaram no ventre em forma de reticências.
Adelaide já não ri. Já não chora.
Conheci a Adelaide como ninguém. Sou uma das três reticências que a vida lhe deu.
Lembro-me dela de cabelo cumprido e sorriso maroto. Cheiro a sabão rosa. Os olhos verdes.
Morava numa casa baixinha, de um quarto, cozinha e sala, casa de banho e jardim.
Fumava às escondidas e lia revistas de moda.
Amou dois homens.
Tinha sempre uma braçada de flores em cima da mesa.
Gritava-me aos ouVidos na voz melodiosa que me esfrangalha de saudades: "Vive!vive!vive!"
Adelaide foi como minguém o minuto noventa.
Viveu para que esse pedaço de tempo não tivesse apenas 60 segundos.
Formou sindicatos, criou associações. Queimou bandeiras. Fez abaixo-assinados.

Morreu ao minuto oitenta e nove de uma tarde de Fevereiro.