Tuesday, January 11, 2005

29

Vinte e nove. Vinte e nove anos! Acabo de ligar a um amigo que faz hoje vinte e nove anos! Como é possível? Vinte e nove parecem-me muitos. A ele, parecem-lhe milhares. São alguns, sem dúvida. E enquanto ele fala, lembro-me de quando tinhamos 12 anos. Uma tarde quente, muito quente de verão. Já eramos amigos. Há amigos que nascem connosco. Eram duas e tal da tarde. Muito quente. Fui a casa dele visitar a mãe. A mãe do meu amigo estava muito doente. Cheguei a casa dele e falei com ela. Ela pediu-me para o ir chamar. Estava a sentir-se muito fraca. Queria despedir-se dele. Saí de casa da mãe do meu amigo a correr, a correr muito. Chamava-o num silêncio gritante enquanto corria pela aldeia à procura dele. Vinte e nove anos! A mãe do meu amigo morreu e ele ficou com os olhos azuis muito mais azuis ainda. Agora que acabo de desligar o telefone, lembro-me de uma tarde, outra tarde, não tão quente. Uma tarde em que entramos na universidade pela primeira vez. Fomos os dois ao cemitério. Ele queria dizer à mãe. E lembro-me de quando fomos para Itália, tres semanas à aventura, ou para Barcelona. Vinte e nove anos.« O tempo passa». Pois passa. Só as recordações é que não.
500 dias

De maneira que nem parecia que já tinham passado 500 dias. 500. Eu contei-te milhares de coisas, desdobrei vezes e tal o guardanapo, mexi no cabelo, remexi no cabelo, sorri, corei, disse piadas. Ri-me. Riste-te. Rimo-nos. De maneira que dessa forma nem parecia que já tinham passado 500 dias. Uma porra de tempo, uma data de meses. Falaste-me de projectos. De trabalho. Tens uma série de coisas para acabar, está a correr bem, disseste-me, mas ando à nora, concluiste. E eu a olhar para ti na esperança que a tua nora tivesse também como causa a minha ausência, a nossa ausência, mas tu adiantaste pouco em relação a isso. E eu respeitei. Contei-te coisas de senhora, surpreendi-me e deixei-te de boca aberta duas ou três vezes. De maneira que assim, quem nos visse, nem ía dizer que já passaram 500 dias. Sem o peso da vitória pedida, assim, é muito mais fácil entrar em campo. E quem nos visse, sentados a beber chá e a contar coisas dos dias, ninguém diria, mesmo ninguém, que já passaram 500 dias.

Thursday, December 16, 2004

Um rapaz perdido pela India
(titulo sugerido por um GPS)
(ela)

E no entanto, nunca a tinha deixado. Corria-a em tardes quentes quando o pó subia ao céu azul que ficava ali, entre o chão e ela. As mãos desmedidas, como o são sempre nestas ocasiões, contavam histórias que ele tinha ouvido dos velhos. E ela ria. Fingia que acreditava que as histórias existiam e contava pássaros às gargalhadas de migrações. Os laranjas misturavam-se com os rosas e os azuis e os roxos e os amarelos em encontros prometidos de tardes quentes. Às vezes, a água não se aguentava e em soluços caía do céu. Nessas alturas ele costumava dizer-lhe que ia ser sempre assim: entre dois polos.O fogo e a água. Ela ria. Fingia que acreditava. E depois havia outra vez sol e risos e mãos e histórias. O céu azul, feliz, como devem ser todos os céus azuis, ensinava-lhe o caminho para sul. E ele seguia. Os pernas em forma de arco uniam os mundos que ficavam ali tão longe. Ele espreitava e sentia-a sorrir. Isso bastava-lhe. Perdeu-se. Por ela.

Tuesday, December 07, 2004

Eu, número sete
(ela)



Tenho o número bordado nas costas como se de uma tatuagem se tratasse. Sete. Escrito. 7. Dito. Sete. Tantas vezes sete quantas as vezes que me encaixo em mim. Guardo um sete nas mãos timidamente fechadas e guardadas nos bolsos nas tardes frias em que desço a avenida rumo a nada. Chove e tenho a humidade presa nos cabelos desalinhados, nas maças do rosto coradas de frio. Corro pelo ladrilho que me escorrega por baixo dos pés. Sinto a tua presença cada vez mais perto e isso dá-me alento para continuar a desviar a chuva do caminho. Sorris-me. Há um relâmpago enorme que rompe a noite. Abres-me os braços em arco. Olho-te, coro baixinho e entrelaço os dedos em forma de sete. Tenho vontade de ficar assim para o resto do tempo, embrulhada no silêncio que me ensinaste a falar. Olho outra vez e já lá não estás. Chove e eu tenho as mãos guardadas nos bolsos nesse abraço impossível que afinal ficou preso em nós. A minha mãe chora, o meu pai reconhece-me ao longe. Aperto os dedos, conto até sete. Será assim para sempre. Com um lápis desenho sete partidas. Um abraço com sete braços. Em sete notas de música tocadas ao acaso, bailo sozinha. Miro-me ao espelho. Ajeito o cabelo, a saia, a camisola curtinha. Hoje, sete, riu-me e choro com a facilidade com que escrevo. Sete vezes me confesso e sete vezes arranco o número sete das costas. Pego na linha das minhas mãos e bordo o número sete no peito, do lado esquerdo, que é aí que os setes da vida devem ficar guardados, mesmo aqueles setes que a gente não arranja forma de os tirar dos bolsos. Chove e eu estou aqui. Dia sete. Parabéns menininha.

Tuesday, November 09, 2004

vou arranjar os pés

vou, vou, pôr-me bonita. Vou arranjar os pés, fazer as unhas, pintar os lábios e cortar o cabelo. Mas antes vou às compras. E nem almoço. Faço tudo de enfiada, ai faço, faço. Faço, e ai dele, logo à noite se não olha para mim.

Já não me lembrava de me ver num vestido. Nem de me ver assim mulher.

Com a cabeça no vestido preto, começo pelo cabelo e as unhas na mãe da Zulmira. A prima lima a conversa com os dedos na mão; a mãe corta o discurso e penteia para outro lado. Pronto já está.

Só falta arranjar os pés. Vou um ante o outro, passo curto, apressado, a casa da Júlia. Atende-me num quarto de hora e já está fico pronta.

Chego a casa, o Henrique não dá por mim, ainda bem, não dá por mim e assim vou ao quarto. Ponho o vestido e preto e deixo-me à frente dele. Estás doente, pareces com má cara, diz-me sem reparar. Não, não, estou cansada, fui à Júlia arranjar os pés.
Deixo-o a falar sozinho.

"Olha, diz à Júlia se amanhã tem tempo para receber os jogadores do sporting"...

e disse mais qualquer coisa

Monday, November 08, 2004


Um homem mete a mão na consciencia.
E tira-a. É pequena e cinzenta. Redonda, jeito de bola. Cheira a queijo suiço. O Homem estremece. Pega-lhe devagar. A mão abre-se e fecha-se, a consciência aumenta e diminui de volume, tipo bola anti-stress. O Homem adapta-lhe as falanges, as falanginhas e as falangetas. A consciência cheira cada vez mais a queijo suiço. Esquece-se o Homem de a pôr ao fresco, apanhar ar. Um rato aproxima-se. Fareja-a. Não a come. Vomita-lhe o cheiro. O Homem fecha a mão outra vez. Guarda-a. Fora da alma a consciência oxida-se. O rato dá meia volta, mete-se na toca. Ali não cabe a consciência. Está salvo o rato. A mão do Homem dá voltas pelo ar. A mão de Deus enfia a consciência colectiva numa baliza branca. O estádio está cheio. O Homem esvazia-se. A noite cai devagar e a mão direita ampara-lhe a queda. A mão esquerda brinca ao lado do coração com a bola cinzenta. O Homem adormece numa migração de consciências e sonha com o rato. O rato aproveita o escuro e sai da toca. Tem fome. Gosta de queijo. Tem mesmo muita fome. E a bola cinzenta está ali, perto, na mão do Homem, cheira mal mas é um alimento, e o rato tem fome. O rato come. Come a falange, a falanginha e a falangeta. E a bola cinzenta solta-se em correrias loucas para dentro da toca do rato.



Clássico
(ela)


Duas horas menos dois minutos. Passo o guardanapo pela boca. Duas horas menos um minuto. Levanto o dedo. Duas horas. « A conta, por favor!». Sem favor trazem-me a conta. Pago. Duas e cinco. Já estou do outro lado da porta. Duas e dez. Chega o nº44:Baixa. Metro. Duas e vinte e dois. Metro outra vez. Rua do Passeio Triste. Duas horas e trinta. Chego. Encosto-me na cadeira. Ajeito a gravata. Passo a mão pela testa, pela cabeça, pelo cabelo. Um registo, dois registos, três registos. Uma certidão de óbito, duas certidões. Três de casamento, quatro de divórcio. Quatro e meia. Um cigarro. Quatro e trinta e dois. Acabou o cigarro. Sento-me outra vez. Quase cinco. Quase quase cinco. Cinco. Cinco horas. A rua está cheia. Eu esvazio-me aos poucos a caminho de casa. A casa. A minha casa. Cheira a molhado. Não chove, mas já choveu e eu tenho por hábito guardar sempre a chuva dentro de minha casa. Seis horas. Faço o jantar? Faço. Sopa. Bhammm... Oito. Sento-me no sofá. Ajeito os chinelos. Xadrez. São de xadrez os meus chilenos. Oito e pouco. Oito e pouco. Oito e pouco. Oito e meia menos pouco. Oito e meia menos pouco. Oito e meia. Uf. Marca? Marca? Ganho? Ganho? Vai? Vai? Dez menos pouco. Dez menos pouco. Dez menos um quarto. Desligo a televisão. Dez horas. Desligo a luz. Dez e dez. penso. Dez e vinte. Penso. Dez e meia. Viro-me. Onze horas. Penso. Outra vez. Onze e vinte. Uff.Onze e meia. Ai.Onze e quarenta. Penso outra vez. Onze e quarenta e cinco. Só já tenho mais quinze minutos para pensar. Penso. Meia-noite menos dois. Meia-noite menos um. Meia-noite. Até amanhã.

Thursday, October 28, 2004

O segredo da felicidade conjugal
(ela)


Sem escrever não vivo, dizia-lhe ela embrulhada em papel reciclado. Sem escrever não vivo mesmo, Eduardo, não vivo e tu bem sabes disso, por isso deixa-me escrever, Eduardo, deixa-me escrever, porque sem escrever não vivo. E assim o meu avô ofereceu-lhe uma máquina de escrever. A minha avó ficou feliz e a viver muito e a escrever ainda mais. E o meu avô ficou com mais tempo para jogar à bola.
Entre Chopin e um árbitro
(ela)
Da minha avó materna herdei algumas coisas, entre elas a arte de chorar. De maneira que quando no domingo passado vi o Pedro a correr entre os miúdos que jogavam à bola no Jardim da Carreira, em Vila Real, não resisti e abri a já por si pouco fechada bolsinha da imaginação do meu saco lacrimal.
O Pedro corria e achava-se uma espécie de arbitro. Espécie, não. Ele era mesmo um árbitro e corria atrás dos putos com um assobio na boca em insistentes assobiadelas. Os miúdos, diversos Nunos Gomes e Decos, olhavam para o Pedro, imagino que com a cabeça cheia de perguntas: quem é esta criança grande? Porque se ri tanto? E de quê? O Pedro tem a minha idade e sofre de trissomia 21. Conheci-o quando tinha eu apenas seis anos. Ele frequentava a casa da minha professora de piano e durante anos frequentou também a paciência de todos nós, alunos da Laidinha. Não foram raras as vezes em que o Pedro entrou de rompante pela nossa pauta, de braço dado com Chopin, os dois em loucas genialidades, trocando os pés a cada avanço de claves de sol, deixando-nos invejosos por essa inusitada intimidade. Que eu saiba, nem mesmo o Nuno e o Paulo, agora os dois senhores professores de conservatório na capital do país, nem um nem outro tiveram honras de andar de braço dado com Chopin, em passeios pelos pianos da Laidinha. Mas não julgo que a minha carreira e a de outros como eu, tenha ficado no primeiro apeadeiro, por causa da desconcentração que o Pedro causava sempre que chegava ao pé de nós com os seus grandes olhos e o sorriso muito rasgado. O certo é que hoje, vinte e um anos depois de ter conhecido o Pedro, volto a encontra-lo, num jardim da cidade, com um apito e um papel dobrado a fazer de cartão vermelho. Corre, desequilibrado, ri muito, tornando os seus enormes olhos ainda maiores. Mostra o cartão, apita, mostra o cartão, apita, mostra o cartão, apita. E ri. Ri muito. Os Nunos Gomes e os Decos fazem-lhe fintas ( como eu o fintava ) olham para ele (como eu o olhava) e não lhe perguntam quem és tu (como eu não perguntava) e vão crescer a pensar quem é ele ( como eu cresci). E um dia, talvez daqui a vinte e um anos, venham ao jardim de Vila Real numa tarde de domingo com um livro na mão, se sentem num banco de pedra com Chopin por perto, desdobrem um cartão vermelho e façam dele um avião.
Minuto final
(menina)
Quando o relógio se aproxima do minuto final sinto que já algumas pessoas abandonaram o estádio. Já sabem qual vai ser o resultado. Caminham em conversas para os carros. É nessa altura que desacelero o ritmo e olho para as nuvens para ver se chove. Raramente cai pinga de água. Os jornalistas atropelam-se nesse minuto final à boca do túnel. Se chove é porque já estava a chover. Olho para o árbitro e ele não olha para mim. Ele olha para o cronómetro que por sua vez olha para o tempo. E o tempo não quer nada comigo. Se a chuva é forte, provavelmente é porque começou a cair ainda no primeiro tempo da partida. Minuto antes de tocar o despertador abraço-te devagarinho para não te acordar. Raramente acordas. Estico uma perna e outra e olho para o tecto. Descubro uma infiltração. Se estas acordada é porque já estavas acordada. Penso em ti no minuto antes de o despertador tocar. Tenho vontade de te dizer bom dia e que gosto de ti e tal e tal mas tu não olhas para mim. E se olhas é porque já estavas a olhar. O árbitro inicia o movimento de levar o assobio à boca. Mais um pé sai da porta do estádio. Outro adepto move um dedo. Procura um cigarro. O árbitro enche os pulmões de ar. Depois do jogo vou para casa. Hás-de estar à minha espera. Um jornalista tropeça noutro. Uma nuvem deixa cair um bocadinho de algodão doce. Não chove, mas eu também já sabia de antemão, que nunca começa a chover um minuto antes de o jogo acabar.

Monday, October 25, 2004

Fora de jogo

Um dia, alguém decidiu ver João Homem, camisa 8, para lá do limilte legal. Alguém com poder de facto para o fazer. João Homem chama-lhe alguém para não ter de lhe recordar o nome. Só.
Protestou, insultou, disse não cem vezes. Reagiu a quente, ficou um homem frio depois.
Quando decidiu parar para pensar, quando decidiu passar a repetição, nem foi preciso movimento lento. João Homem estava para lá do bom senso, muito distante da honestidade, a jogar em vários campos em simultâneo. E no entanto protestou, insultou, disse não cem vezes.

Sem saber muito como, este Homem viu-se num instante a sombra de tantos homens. Com os vícios de não trazer por casa. Os 40 euros por cada vez no motel, as facturas de deitar fora pelo vidro do carro a quinhentos metros do quarto. E aquele cheiro a que cheiram as outras, aquele que fica colado na pele e preso na roupa. Aquele que incendeia e cega, esse, aquele que se deseja desesperado e que desesperadamente se reza para ir embora.
Ele é Homem para ficar quieto e fingir estar vivo. É Homem para se achar gente apenas por causa da aquele 8 que trás nas costas aos domingos á tarde. Esse 8 que lhe está a moldar a vida, a fazer-lhe a forma de duas curvas em nó. Um caminho sem saída, mas não para ele. O 8 está-lhe preso nas costas e ele já está velho de mais para ver número que anda a fazer.
É Homem para continuar a protestar ou a insultar. Homem para continuar dizer não cem vezes.



Friday, October 15, 2004

Momento
(por ela)



Ao Francisco que se vai dando a conhecer entre letras


Há um momento preciso no preciso momento em que a bola quase toca o pé. Um momento onde o tempo nasce e se iguala à leveza do ar e onde os segundos ficam pendurados à espera de um sopro de nós. Um segundo incontável onde se desenham linhas e angulos quase rectos numa espera inadiável de finais. E de caixas cor-de-rosa saltam duendes de camisolas verdes que saltitam entre pés do pé direito para o esquerdo de homens curvados perante esse tal inadiável encontro. O céu azul, feliz como deve ser o azul celeste, baixa-se em pano de fundo sob o risinho escancarado dos pequenos duendes que com lápis de cor nenhuma desenham mais angulos e mais algarismos numa matemática de contos de fadas. E num enorme balanço de joelhos, quase, quase, quase tocam a bola...mas não. Um duende mais pequeno com medo do frio olha para o branco da baliza enorme que se ri à nossa frente e volta para casa de mochila às costas para o regaço da mãe que o espera com o leite quentinho numa tijela de barro. E eu ali fico agarrado ao segundo que teima em não cair daquele pedaço azul que baila sob mim. O meu pé direito cheio de cocegas, num vai que não vem, num remata que não remata, à espera que eu lhe dê a ordem de capitão, que lhe indique o caminho para esse tal encontro, porque afinal há sempre um segundo por cair em cada um de nós e um segundo é apenas um segundo, tal como uma baliza é apenas uma baliza, um medo apenas um medo, um duende de camisola verde apenas um duende de camisola verde, tal como os poemas são apenas poemas e a vida é apenas isso: vida.

Wednesday, October 13, 2004

A importância de se ser David
(menina)

David número 10 corre para a baliza. David olha para a bola. Gritam por David número 10 nas bancadas. David não ouve nada. Minto. David ouve. David ouve o bater do coração. Pum.Pum.Pum.Pum.Pum.Pum.Pum.Pum.Pum.Pum. Dez vezes. David número 10 é um herói do campo verde onde se move em correrias loucas de Davides contra nada. Minto. David está sempre contra a corrente. A favor do vento. A favor do vento, que é assim que se corre melhor e David número 10 gosta de correr e por isso corre sempre a favor do vento contra as coisas das quais é contra e é contra tanta coisa. Gritam por David nas bancadas. David acerta o corpo. David estica o pé. Sorri. Sorri sempre o David. E David número 10 chuta. Chuta muito e muito alto e a bola ri e ri muito e muito e o publico nas bancadas ri também e a baliza escancara-se numa gargalhada e a bola entra numa curiosidade de médicos a tentar desvendar os mistérios da laringe. E David número 10 sorri dez sorrisos seguidos erguidos aos céus onde o eco se mistura com o doce das nuvens e se ouve David.
Bilhetes
(escrito por ela)


Podes voltar logo à noite e fazer aquelas batatas assadas que gostavas de fazer que desta vez não me vou importar com a minha azia, a afinal, que se lixe a azia, para que servem os médicos? para que servem os médicos perguntavas-me tu e eu respondia-te que os médicos servem para dar remédios e eu não gosto de tomar remédios mas eu posso aprender a gostar porque a gente habitua-se aos gostos. E eu prometo que não me volto a queixar e não volto a falar da porra da azia e por isso podes voltar e fazer as batatas que eu esqueço aquele papel que me deixaste pendurado no frigorifico. E logo no frigorifico, porquê o frigorifico?, aquele que foi tão caro e que tu namoravas na loja dos electrodomésticos ao fim de semana quando passeávamos no centro comercial e tu querias comprar um ferro de passar com vapor, que eu achava desnecessário, afinal Matilde não temos já um ferro de passar? mas agora concordo, o ferro é bom para engomar as minhas calças de domingo. E afinal querias só o ferro, queriamos apenas um ferro e acabámos por comprar um frigorifico, bonito é certo, mas é apenas um frigorifico, é preciso ir outra vez à loja Matilde? outra vez Matilde? é lindo, é certo, é de inox. E agora a porra do inox fica tão mal como cenário de fundo para o papel que me deixaste pendurado com dois anjinhos. No frigorifico Matilde? No frigorifico Matilde? Agora que já passaram tantos dias e que o raio da assadeira continua dentro do fogão, agora Matilde, agora que já passaram tantos dias que até já há quem diga que te viu com o rapaz da loja de electrodomésticos onde nós passeavamos ao fim de semana ( imagina só, tu e o rapaz do frigorifico, linguareiras as vizinhas, não ligues Matilde), agora que me lembro da tua insistência em saber todos os domingos o preço do frigorifico e do ferro e do secador de cabelo e do secador de roupa e do e do e do, agora que me lembro disso tudo e que tenho a certeza que apenas estavas interessada nos preços porque estavas preocupada, muito preocupada com as contas de casa, agora que sei disso tudo, agora vou telefonar para o camião das mudanças, vou fazer caridade, oferecer o frigorifico à Casa das Florinhas, dar um sermão às vizinhas que dizem que te viram aos beijos com o senhor dos electrodomésticos (imagina só, não lhes ligues Matilde), agora vou pegar no bilhete que me deixaste entre dois anjinhos, fazer um avião, apanhar a primeira migração de pássaros e voar. E este domingo não vou querer comer batatas assadas, porque me fazem uma azia do caraças e eu detesto médicos detesto remédios detesto batatas, por isso este domingo vou-me rir do teu bilhete e vou comprar um bilhete a sério, lindo e lustroso, e vou ver o meu Benfica.

Friday, October 01, 2004

Quando era pequena gostava de brincar aos elásticos. Agora gosto de brincar às letras. Não será parecido?
Peruísses muito sérias!

(coisa de galinha)



(o que se segue é o excerto da resposta a um jornalista dado por um jogador de futebol de 24, após um jogo entre as Galinhas de Cima contra os Perús de Baixo, numa noite de Natal, em que as Galinhas de Cima derrotaram por meio golo os Perús de Baixo sob uma chuva de estrelas no qual se destacou o maravilhoso Perú da Capoeira, aqui dando bicadas a torto e a direito, e que consta mudou de sexo para conseguir infiltrar-se na capoeira das Galinhas de Cima, na hora do banho.)




Louco. Sou louco. Sou louco. Sou louco. Sou louco. Sou louco. Sou louco. Sou louco. Sou louco. Sou louco porque sim. Sou louco porque sim. Sou louco porque sim. Sou louco porque sim. Sou louco porque me apetece. Sou louco porque me apetece. Sou louco porque me apetece. Sou louco porque gosto. Sou louco porque gosto. Sou louco porque gosto de ser assim. Louco de ti, louco de mim. Sou louco porque sim. E porque o sim é sim e o não é não, sou louco porque sim e porque não. Sou louco de pai e mãe, sou louco porque sou louco. E a loucura é assim, nasce e não morre, porque louco de início louco até ao fim. Sou louco porque sim. E depois? O que tens tu com isso, se a loucura é minha e se o riso e o choro me pertencem? Sou louco porque sou louco e a loucura não se justifica, sou louco do inicio ao fim, e porque sim é argumento, para quem gosta e para quem não gosta de mim, aqui vai, directamente de mim, sou louco porque sim!


(Ao que consta o Perú da Capoeira agora assina tudo o que há para assinar como Perua sem Beira)
Uma sala acolhedora com vista para nós
( senhora)


Foi por causa dela que me tornei no que sou. O maior entre os maiores, o mais respeitável entre os mais respeitáveis do admirável publico. Foi por causa dela que me tornei num galã, sem capa nem espada, num galã de mim, de fala e de ouvido, capaz de transformar um coração de pedra, numa acolhedora sala com lareira. Foi por causa dela, digo-o, em alto e bom som, escrevo-o, em letras MAIUSCULAS, e não me arrependo nada. Ela, só ela, ela e eu. Ela e eu no bom estilo do romântico, de velho apaixonado, capaz de tudo, por causa daquela senhora que de manhã calça sapato de salto alto, daqueles de agulha, e ao final da tarde, corre para casa, ao encontro do belíssimo baú de madeira onde guarda as velhas chuteiras ainda cheias de terra de uma infância que me teima em durar. E enquanto eu digiro as ultimas lágrimas, mais salgadas do que as primeiras, ela calça-me uma chuteira no pé esquerdo, calça a outra no pé direito dela, e pendura-se no meu colo, numa dança embalada por uma música em ré menor, e fica ali, a fazer-me sorrir, enquanto sem voz lhe peço desculpa, e as lágrimas vão perdendo o sal e a noite desce sobre os recortes de nós.
Claro que não sou eu!
(indiscrições no feminino de uma máquina fotográfica)


De maneira que quando olho para as fotografias nem acredito que sou eu. Não posso ser eu. Claro que não sou eu! Esse da foto não usa óculos e tem um sorriso branco. Esse da foto remata forte, tão forte que a bola geralmente nem se vê no instante do clique. Claro que não sou eu. Esse da foto tem uma multidão anónima atrás dele em gritaria a festejar a entrada da bola na baliza. ( Essa tal parte que o clique da máquina nunca apanhou, pelo menos nas dezenas de fotos que tenho por aqui espalhadas na parede do meu quarto, e que juro, não me pertencem, não são minhas).
Como sou cavalheiro, bem educado, finjo que me dou bem com esse da foto e às vezes, confesso, a convivência nem é assim tão má. Lá por ele ser novo e ter marcado 444 golos ao serviço do União dos Decá, não significa que eu tenha inveja dele. Lá por ele ser jovem e ter o número 10 nas costas, não significa que eu não goste dele. Lá por ele ser novíssimo e ter casado com a Matilde do quiosque, aquela de olhos meigos e corpo capaz de causar arrepios de febre, não quer dizer, claro que não quer dizer, que eu não consiga viver em paz com esse tal da foto, que bem vistas as coisas, até tem uns certos ares comigo, na parte dos olhos, (apesar de eu usar óculos), até tem umas certas parecenças comigo na estatura (apesar de eu ter barriga e mais 20 quilos do que ele), até tem uma forma de sorrir que – dizem – faz lembrar o meu sorriso ( se bem que com os dentes todos talvez fosse mais parecido). Seja como for, esse da foto, não sou eu. Mas como sou cavalheiro, e como sempre gostei muito de ver jogar o União dos Decá, vivo pacificamente com ele nas paredes do meu quarto. E finjo que não vejo a minha Matilde a olhar para ele, com olhos de febre, quando nas noites de Inverno os nossos copos velhos e cansados param de lutar embrulhados sob a colcha de renda, presente de casamento da tia Francisca.

Sunday, September 26, 2004

A história da Meia Lua
(versão feminina)
Nunca ninguém ousara perguntar-lhe a quem pertencia a barriga que gerara tão bela criatura. Era enigma. Coisa falada em segredo, três vezes benzida antes de pronunciar qualquer palavra relacionada com tal ventre. Mas como era linda aquela menina! Tinha olhos pretos, tão pretos, que ao pé deles, a noite parecia irmã do dia. Quem era o pai todos sabiam. Quem era a mãe… ninguém se atrevia sequer a querer saber. Parecia coisa de fadas. Ou diabos. Mas passemos à apresentação da história que se segue. Zé Tristão era o pai da garotinha. A mãe, já o disse, ninguém sabia quem era. Tristão nunca fora visto com mulher nem bicho parecido. Era só. Vivia só. Só ele a olhar a lua. Jogava futebol, chamemos-lhe assim, ao jogo ruim de ver e de jogar, que Zé Tristão improvisava num campo de terra, para lá do sol posto. Ai como jogava mal! Diziam as más línguas, que tamanha falta de pontaria, era por falta de mulher. Zé Tristão rematava torto, tão torto, que não raras as vezes, a bola fugia a sete ventos e desaparecia em tempo algum. Quantas bolas se perderam nos riscos do horizonte… um dia Zé Tristão saiu de Covelinhos para ir apanhar uma bola e chegou abanando o seu desajeitado tronco, as suas pernas desproporcionais a desobedecerem a qualquer matemática do corpo humano. Zé Tristão chegava feliz. Numa mão trazia a bola, na outra uma pequena criaturinha rosada e linda. Tão linda! Nunca ninguém tinha visto criança tão bonita. E juro que não estou a exagerar! Tristão engalanou-se e apresentou a pequena como sendo sua filha. A menina foi crescendo na proporção da sua desmesurada beleza. Ninguém perguntava a Zé Tristão quem era a mãe. Ao ano e meio já a garota corria mais do que o pai. No dia em que fez dois aniversários, era domingo. Zé Tristão tinha jogo de futebol. Zé pegou nas chuteiras com uma mão e com a outra segurou a mão da garota. Chegados ao campo, pegou na catraia e sentou-a em cima da baliza, no exacto lugar onde o vértice superior esquerdo segura a malha. Do lado do coração. Todos acharam que Tristão estava louco. Que ia magoar a pequena. Mas Tristão pouco se importou dos apupos. A petiza também não. Sorria para o pai com o sorriso mais belo que a sua beleza conseguia tecer. O jogo começou no final da tarde, tal a discussão que se gerou em torno de tão impróprio lugar para sentar uma criança. Era quase noite. Zé correu para a bola com o seu corpo enorme e fora de ritmo. A pequena baloiçava os pezitos ao penduro na baliza. Zé Tristão sorriu para dentro. Abriu bem as narinas, engoliu todo o ar que conseguia e rematou. Rematou forte. Muito forte. Quem estava fechou os olhos. Um aiiiiii geral encheu o campo. Um pensamento unânime gelou os corações : “coitada da menina!”. Quando os Covelinhenses abriram os olhos, a medo, viram a bola anichada no cantinho da baliza. Era já noite. A brancura da bola e da malha contrastavam com o negro do ar. Varreram com os olhos os cantos do campo.
E ao longe, ainda conseguiram ver Zé Tristão e a menina a subir muito alto, pelo lado esquerdo do céu. Contaram-me depois, foram ter com a mãe da pequena, que lá do alto, esperava a sua metade para se transformar em Lua Cheia.

Friday, September 24, 2004

Meia Lua

Em pequeno, o sobrenome Meia ditou-lhe anos de tormento. Meia leca para os mais educados, Meia foda para os outros, quase todos, escusado será dizer. As piadas, tantas, estendiam-se ao último apelido. Ou porque andava sempre de cabeça na Lua, ou então, bem pior, tinha nascido de cú para a Lua. Uma imensidão de lugares comuns bem à medida tradicional de casos à margem da social normalidade.
Há apenas um momento de esquecer tudo. E começou naquele fim de tarde, ao balcão do café do pai e da mãe, com o leite nos lábios e pão com manteiga nos dentes. Fazia isso às terças e quintas, sempre, porque as aulas acabavam mais cedo. Ao balcão do café Meia Lua, propriedade de Maria Fio de Meia e Joaquim Joaquim Sol e Lua, os pais de João Maria Meia Lua.
A hora do lanche dele, naquele dia, à hora da cerveja do senhor Campos, treinador dos iniciados do Desportivo União, traçou um futuro mais do que perfeito.
Hoje relembra quase tudo desses dias. E se sorri no minuto mais importante da sua vida, enquanto milhares estão em pânico na bancada, milhões em casa, um dezena no campo e mais uma dezena no banco, se sorri neste momento, a explicação é demasiado simples.
Está a ver-se exactamente assim, há treze anos atrás, no pelado do Clube de Futebol de Serzedo, rival eterno do Desportivo União. O sorriso é por causa dos calções largos em pano, calções velhos dos seniores, presos na cinta pelo cordão de uma chuteira que tinha esgotado o prazo de vida. Chutou para ganhar.
Está hoje também no único sítio da área onde a linha faz curva. Os nomes ditos nas bocas dos outros são outros. No único sítio da área onde a linha faz curva, faz o que tem a fazer.
Demasiado simples para ele, João Maria Meia Lua. Já só responde por Meia Lua. Mas é o de sempre: apenas filho do Quim Quim e da Mimi.